Pra inglês, americano, outros gringos e brasileiros verem

Na repercussão das acusações contra Lula feita pelo promotores da Lava Jato, o New York Times parece relativizar o roubo e o crime.
Se o fez com essa intenção, é assustador o parágrafo, no meio da extensa reportagem, que pode revelar um aparente (“ou não”, como diria o Lulista Caetano Veloso), desconhecimento da amplitude da operação, da nova fase da justiça brasileira e dos anseios nacionais contemporâneos de punir seja quem for, de querer se livrar do mal da corrupção e de avançar institucionalmente. E curioso é que vem justamente do maior jornal de uma sociedade, a norte-americana, que pune severamente o ato de mentir, independente do grau e da consequência da mentira.
É o jornalismo ou os valores sociais que estão se deturpando? Ou ambos?
Reproduzo abaixo o texto original e uma tradução livre desse trecho da reportagem:

“The amount of money that Mr. da Silva is accused of receiving in a form of an apartment upgrade pales in comparison with what others have been accused of pocketing in recent years.”

Em tradução livre:

” A quantidade de dinheiro que Lula é acusado de ter recebido na forma da reforma luxuosa (as fotos revelam que o “upgrade” foi de um apartamento comum para uma cobertura com requintes de luxo) de um apartamento é quase nada em comparação ao que outros (políticos e empresários, suponho) são acusados de terem embolsado nos últimos anos”.

O NY Times, cujo link da reportagem na íntegra segue abaixo, parece ignorar alguns fatos com a frase acima:

– se pouco ou muito, Lula era o presidente do Brasil e os favores de valores “pálidos” recebidos (em comparação a outros) teriam propiciado desvios bilionários da Petrobras para compra de poder e influência em seu governo. Não dá pra relativizar isso, dá? É isso o que se investiga.

– O corrupto, de que tamanho for, antes até tratado com alguma leniência e interesse, foi alçado à condição de criminoso nacional, cuja tolerância para com ele está se esfacelando, mesmo com hábitos estranhos e deletérios que ainda persistem na sociedade brasileira de não se atacar esse ou aquele por conveniência. Fato é que alguns desses que aplicam o conceito da seletividade residem em parte de pessoas ou grupos partidários e pseudosociais, ao menos publicamente, que orbitam ao redor de Lula e que ele, segundo as escutas da época da nomeação fracassada ao ministério de Dilma, demonstra real e efetivo poder de influência.

– Nas manifestações contra o impeachment de Dilma e do “Fora, Temer” havia faixas que pediam a prisão de Moro e a soltura de Zé Dirceu. Estranho, né? Difícil imaginar que a esquerda defenda isso. Não a intelectualmente honesta.

– Nas maiores manifestações já vistas neste país, as que pediam o impechment de de Dilma, também se pedia a cassação de Cunha (os dois já se foram). E apesar de pequenos grupos pedirem a volta dos militares ao poder, que se revelaram desconectados da maioria, não tiveram apoio da sociedade. Difícil imaginar que o sãos de consciência queiram isso. Porque os militares não querem e jamais se insurgiram desde a redemocratização.

– As acusações recentes contra Lula só miram o caso do apartamento do Guarujá, mas ainda há investigações sobre o sítio de Atibaia, os filhos de Lula e o caso da suposta amante do ex-presidente. E tem ainda a caixa preta do BNDES pra ser aberta.

– nas investigações da Lava jato, há uma miríade de partidos envolvidos e com acusações sendo investigadas, entre governistas e oposicionistas de vários partidos e tempos. E muitos empresários.

– A Lava Jato investiga e já prendeu muita gente entre políticos, “laranjas” e empresários.

– o Mensalão de 2012 foi o maior processo judicial da história brasileira, que levou à cadeia políticos e poderosos que jamais se imaginaria presos. E rendeu frutos de independência ao judiciário.

– Lula, investigado em outro processo em Brasília, é, se o juiz Sérgio Moro acolher as novas denúncias dos promotores, apenas a bola da vez. Bola que parece ser de neve na tentativa imensurável de um país passar-se a limpo. Não é pouco e não vai parar por aí.

Não é justo, se essa foi a real intenção do NYT, relativizar a corrupção neste país, Não mais.

Abaixo, o link da reportagem na íntegra:

http://www.nytimes.com/2016/09/15/world/americas/brazil-lula-corruption-charges.html?hpw&rref=world&action=click&pgtype=Homepage&module=well-region&region=bottom-well&WT.nav=bottom-well

Um novo governo que requer um novo brasileiro

Por Adalberto Piotto

É inegável que quem trabalha, empreende e investe seu pouco ou muito em iniciativas que movimentam a economia está com esperanças renovadas hoje.

A mudança sempre será bem-vinda ante o imobilismo e a regressão em que estávamos.

A vitoriosa hoje é a cidadania brasileira, sob sua única e exclusiva autonomia, sem intermediários. Novos brasileiros que decidiram intervir no velho e que precisam vigiar o novo governo, jamais terceirizando o exercício de seus direitos a falsos movimentos sociais e salvadores da pátria.

É inegável que temos na sociedade esse novo sentimento de comprometimento e pertencimento. Mais do que tivemos no passado, menos do que ainda precisaremos.

Receio – e comemoro – ser um caminho – o certo – sem volta. O Brasil agradece.

Talvez por isso, haja essa sensação igualmente inegável que as dificuldades serão muitas, dado o descalabro administrativo que Dilma e o PT de Lula deixaram ao país.

Mas não se poderia melhorar nada sem mudar.

Nunca vi gafanhotos irrigando plantações. Homens de bem, sim.

A transformação que vemos, a de governo, é definitiva?

Não.

Nem política nem administrativamente.

Primeiro, porque o impeachment ainda é um processo de suspensão temporária do poder – e Dilma vê orgulho de honra onde só há arrogância mesquinha ao não reconhecer seus limites e renunciar liberando o país aos brasileiros que querem reconstruí-lo. Sem renúncia, ainda haverá o julgamento final e um debate político tão desnecessário quanto desgastante, com uma oposição esquizofrênica do PT e seus satélites.

Segundo, porque a economia vive de expectativa, a mesma que foi esquartejada pela crise política do governo que caiu, mas requer muito mais.Ninguém investe ou trabalha sem expectativa de retorno. A paralisia que nos acomete está intrinsicamente ligada e é proporcional à ausência de luz no fim do túnel.

Concretamente, com a lambança no setor energético, e, figurativamente, com a incompetência retumbante de Dilma e do PT, o governo que já vai tarde apagou as luzes que mostrariam-nos caminhos por onde seguir.

Recorro ao lirismo da democracia pra dizer que foi o farol da Constituição a nos guiar ao prever o afastamento legal ante crimes fiscais e nefastos de responsabilidade da mandatária.

Essa esperança, uma qualidade humana que os brasileiros expressam com desenvoltura, voltou a aparecer no horizonte com o processo do impeachment iniciado no Senado.

Isso não é pouco. O que vivemos ontem e na manhã de hoje foi o exercício legal dos ditames constitucionais. Solidez democrática que nos sustenta e nos permite corrigir os erros.

Há, sim, esperança no ar.

Sobretudo sinais de competência e seriedade com nomes de alguns novos ministros e a demonstração do presidente em exercício de que não comunga dos arroubos de autossuficiência de sua antecessora.

Reconhecer-se falível, dá-nos empenho maior para corrigir erros e a nos preprarar para os infortúnios. Não provoca orgulho nos outros afundar um navio, mas em evitar o naufrágio.

E mesmo com cenários mais animadores, as correções demandam tempo. E os investimentos têm seu próprio ciclo para provocarem mudanças. Inegável que só o fato de começarem, as mudanças começam também em maior ou menor grau e a roda volta a girar. É aí que reside o ponto central do meu argumento: o recomeço de algo que estava parado, abandonado.

Além do que o desejo da evolução é humano. Os brasileiros são humanos.
Se por um lado as demandas por correções de rumo só se agigantaram, ante a imensidão de erros da política lulopetista da Dilma gerente que ofende o mais simples administrador de padaria, há alguém querendo de novo produzir pão e, permita-me uma vez mais o tom filosófico, muitos mais precisando de pão pra viver.

A economia é uma ciência humana. É movida por anseios humanos.

O desafio de Temer, que não é só dele, porque o país é de todos, precisará dos mesmos brasileiros que foram por muito tempo generosos e participativos com os aventureiros que deixam hoje o poder. E o desafio é coletivamente gigantesco.

Mas não há escolha a não ser enfrentá-lo com dignidade.
Temer não precisará recorrer a Winston Churchil e dizer aos brasileiros que só pode prometer “sangue, suor e lágrimas” porque o desejo de vitória ante o inimigo alheio é inequívoco. Não estamos em guerra e comparações com a Segunda Grande Guerra são fora de lugar. Lá, foi uma luta da humanidade pelos direitos humanos mais básicos. E uma guerra e suas dores são incomparáveis.

No caso brasileiro, os inimigos estão dentro de nossa sociedade, do aparato do Estado, do serviço público em si, do regime legal. Assim como também estão dentro as soluções.

Não se trata de uma guerra a recuperação brasileira. Trata-se, sim, de correções internas.

À frente do governo, Temer terá duas opções: ou assume as dificuldades de sentar-se na cadeira de presidente, que lhe é de direito por causa do afastamento de Dilma, e mostra por onde e como se faz um governo competente, mesmo que difícil, ou cede aos vícios de por a culpa no passado e nos outros.

Se comandar uma mudança é tarefa dura, por a culpa no passado e nos outros pode fazê-lo ficar parecido com Dilma e Lula, a dupla tragicômica da falta de senso republicano.

Se quiser ter alguma biografia louvável, é tudo o que Temer precisa evitar.

E o Brasil se ver livre definitivamente.