Go, Brazil, gone!

Anos atrás, pra frisson da parte mais deslumbrada da crítica de cinema, o diretor norte-americano Spike Lee veio ao país filmar um documentário sobre o Brasil.

Naqueles tempos, 2011, 2012, o fenômeno brasileiro ainda rodava o mundo e o Cristo Redentor decolava como um foguete na capa da Economist.

Commodities em alta e gastos exponenciais do governo, assim como renúncias fiscais para fogão, geladeira, automóvel, etc, geravam um consumo elevado das famílias que resultava no que a economia chama de sensação de conforto. Entre a sensação se transformar em conforto real e sustentável é necessário tempo.

O tempo que veio a seguir nos mostrou um enorme desconforto.

Mas para a propaganda do sucesso nacional e da ascensão social, bastava o poder de compra momentâneo, que era real, que exisitia e se transformava em bens de consumo.

E propaganda bem feita consegue a proeza de dar gosto e cheiro até para o que nem se vê, imagina com o que se pode pegar e levar pra casa, por na churrasqueira ou mostrar para o vizinho? Esse sonho materializado, indepedentemente se capaz de ser mantido no longo prazo, convenceu os incautos sem dificuldades e a festa à brasileira foi vendida ao mundo como a nova realidade nacional.

E nesse momento de sonho acordado, sob um argumento apoteótico acerca do nacionalismo lunático finalmente vencedor, Lee entrevistou muitos artistas e políticos sobre seus olhares acerca de um Brasil que, aparentemente, saía de seu atraso social com voz mais disseminada a todos. Prova disso que também entrevistou Dilma, sobretudo pelo momento socioeconômico. Era o ápice.

O documentário chamar-se-ia “Go Brazil, go!”. Sem que se soubesse o que seria o filme de fato – não foi lançado ainda – era o nirvana do deslumbre, o que gerava o fato em si e o entorno dele.

Acreditava-se que focado ou não na temática dos direitos dos negros, uma marca na obra de Lee, um diretor gringo iria narrar o sucesso e a entrada brasileira no mundo desenvolvido e de elevado bem-estar social.

“Go, Brazil, go” foi narrado pelos deslumbrados da época, no jornalismo ou na propaganda do governo, quase que como um renovado “Pra frente, Brasil”, aquele da propaganda militar na ditadura, com o inconveniente – não declarado – de ser apenas uma intenção, em fase de produção, e com um argumento final desconhecido.

Sem julgar o filme que não pode ser visto ainda, e não faço aqui crítica de cinema, a realidade brasileira, e é dela que escrevo, é nossa inalienável companheira a nos mostrar como aquele modelo era insustentável e enganou uma vez mais a parte da sociedade deste país que ensaia ascender de vez desde 1500. E de alguma forma, com uma sensação de conforto mais qualificado e caro, também os do andar de cima na pirâmide social brasileira superfaturada.

O modelo econômico do populismo rasteiro, sem base teórica razoável nem sustentação prática, falhou, ruiu, decepcionou.

“Go Brazil, go” de Spike Lee, como um representante do momento, resultou, sem pretensão de ser, em uma espécie de ‘Gone Brazil, gone’.

Acabou o sonho, o deslumbre. Sobrou a crise e a mentira. O sonho do marketing governamental do ‘agora chegamos lá’ foi tão eficiente nos seus anos dourados quanto a inconsequência dos governos Lula e Dilma para garantir os ganhos e preservá-los. Os mínimos, ao menos.

Deu no que estamos vivenciando.

O filme? Não sei exatamente do que trata. Só quando – e se – o assistirmos.

O Brasil? Está aí para ser passado a limpo e reconstruído uma vez mais, vítima de destruidores famintos uma vez mais, agora da esquerda lulopetista.

Por isso, pergunto: quando é que os brasileiros vão aprender que o Brasil será tão somente o que nós fizermos dele? Que não há atalho, que o caminho é longo e que as soluções precisam levar em conta o futuro, mesmo que sejam duras aos contemporâneos?

Que somos nós os brasileiros os responsáveis por assumir e tomar conta do país com responsabilidade?

Agora, por exemplo, digladiamo-nos pra ver quem consegue mais espaço na mídia internacional. Pra inglês ver, no Guardian, de correspondentes engajados não no jornalismo, mas em suas convicções e conexões suspeitas.

De novo? Santo Onofre! Que mania de colonizado que não acaba nunca!

Enquanto isso, o bom e bem feito jornalismo brasileiro denuncia e escacara o populismo e os maus tratos da classe política e da própria população com o país.

Este é escrito e falado em português, acessível e para todos os nacionais que importam e deveriam se importar com a real vida brasileira.

Todos entendem que estamos mal.

E é disso que o atual governo tenta fugir com versões em inglês pra mídia internacional de “golpes” e atentados à democracia que simplesmente não existem. Versões que jamais serão suficientes para ocultar seus crimes e sua irresponsabilidade com as contas e as necessidades do país.

Os números da contabilidade criativa ou das pedaladas fiscais, a dengue, a zika, a picada do Aedes, o esgoto nos rios e praias, as contas da corrupção, os números do desemprego, da inflação, das ações da Petrobras em queda e ciclovias malfeitas sendo levantadas pelas ondas do mar são a linguagem universal do descaso e da incompetência.

Todo o mundo entende.