Ares de esperança

Mas a legalidade do processo tem vida própria. Cunha fez o favor ao país de não interrompê-la, embora tenha atrasado-a.
É, portanto, necessário e muito importante ressaltar que o processo de impeachment não está ancorado na vontade do presidente da Câmara Eduardo Cunha.
Está, sim, justificado no descalabro fiscal e administrativo, ético e moral do primeiro e do início do segundo mandato de Dilma Rousseff.
Tudo detalhadamente explicado no técnico e competente pedido de impeachment apresentado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Junior e Janaína Paschoal.
O impeachment está previsto na Constituição e hoje é inegável pensar que não represente o anseio da opinião pública.
Este país deu hoje passo decisivo para retomar a credibilidade e o futuro com um possível afastamento da presidente da República.
A esperança real, a de verdade, começa a vencer a tragédia moral.

Uma série de artigos deste início de 2015

Por Adalberto Piotto

É do direito de expressão. E a democracia garante isso, assim como o contraditório cada vez maior e mais ativo.
Não vou ponderar sobre o pronunciamento de Dilma. As vaias e o panelaço já o fizeram com justiça, dada a ausência de mea culpa da presidente e da sua incompreensível incompreensão do momento pelo qual passa o país.
Mas me refiro a esses tais que invocam a luta de classes para questionar a legitimidade das manifestações de ontem.
“Varanda gourmet”, “bacanas de bairros A, B ou C” foram alguns dos qualificadores usados para dar alguma pretensão e preocupação social às suas análises. Bobagem de gente esperta que está perdendo o argumento ou o emprego formal ou informal com o governo do PT ou com o PT e sua estrutura. Ou mesmo de ideólogos vaidosos, mesmo que remunerados apenas pelo ego.
E eles, esquerda-caviar que são, ignoram o que os trabalhadores de verdade dizem e reclamam diariamente nos ônibus, metrôs, filas ou nas periferias e cidades interioranas que eu vou. E nas varandas, vielas, vilas ou lajes.
Trabalhadores de verdade, insisto, não os do PT ou dos seus sindicatos milionários.
O generalismo dessa crítica baseada numa falsa luta de classes, inventada por Lula para continuar ludibriando, é injusto e desviado do propósito inicial de qualquer manifestação, de qualquer indivíduo, que merece ser analisada e considerada.
Eu, como milhões, não sonego. Toda vez que digo que não ultrapasso a cota dos 500 dólares da alfândega, o que também seria sonegação se não declarado, ouço comentários de gente das várias classes acerca de minha pobre esperteza. Fico lisonjeado, mas muito mais incomodado.
Eu, como milhões, sou vítima de um Estado que não une, que separa, oprime os cidadãos com seus órgãos cheios de burocratas prontos para atirar e acusar primeiro e, depois, se você tiver sorte, apurar, ouvir-lhe, considerar.
Eu, como milhões, trabalho e me envolvo com o país num sentimento coletivista e não acho isso nada além de minha obrigação. Não digo que fazer o certo, como este governo insano faz, seja um favor que exige voto de cabresto como troca.
Eu, como milhões, não tenho varanda gourmet e protestei ontem. Respeitosamente, mas protestei. Nunca me omito. E ter varanda gourmet não é defeito. Se adquirida com dinheiro justo, é um direito.
Eu, como milhões, também considero que ter varanda gourmet ou laje do churrasco não é qualificador automático para considerar ou desconsiderar seus ocupantes ou suas críticas como válidos ou inválidos. É preciso ouvir e saber que todos são todos. A esquerda detesta a ausência de um politiburo.
Eu, como milhões, tenho o dever de ouvir e considerar o que reclamam da varanda ou da laje, como muita gente e organizações desta sociedade em transformação estão fazendo. E isso é um avanço que destrói o muro dos pseudo-intelectuais que precisam dele para construir teses abjetas, retrógradas e manter suas claques omissas ante o contemporâneo.
Eu, como milhões, faço mais que minha mera parte. E não cobro por isso. É o que se deve fazer e pronto.
Eu, como milhões, sei que um país não pode abrir mão do esforço de ninguém e não vou ficar preso a este casuísmo intelectualmente pobre e sem nenhuma intenção que não seja marcar uma posição vaidosa.
Eu, como milhões, repudio o achaque, a roubalheira, a corrupção, a pilhagem, a mentira, a falta de compromisso social deste governo e de seus apoiadores ideológicos ou bem remunerados.
Eu, como milhões, defendo que se puna a todos os que devem e desviam, sem compensação de tempo ou classe, porque este país não pode esperar mais pra ser justo. Só justo. Não paternalista nem bonzinho. Justo.
Eu, como milhões, defendo direitos e deveres com a mesma intensidade, mesmo que isso tire o discurso fácil e malandro do coitadismo brasileiro.
Eu, como milhões, me envolvo com demandas localizadas, para que se tenha justiça social para as pessoas de toda as classes. E tenho certeza que faço o que devo.
Eu, como milhões, tenho um país para recuperar e não tenho como dar muito mais atenção a artigos anacrônicos, vaidosos e preconceituosos seja de quem for.
Mas continuarei sempre aberto ao debate intelectualmente honesto.

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