Impeachment jabuticaba

Ontem, na decisão mancomunada com o que há de pior na política brasileira no momento (políticos e partidos costumam se superar), o presidente do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski rasgou o texto constitucional.

Ao “reler” uma artigo claro da Constituição, dando-lhe uma interpretação peculiar ao texto sobre o impeachment, que resultou no fatiamento da votação e punição pela metade, ele, Renan, o PT e parte do PMDB produziram para espanto da nação um impeachmet jabuticaba, uma dessas coisas que só existem aqui.

De resto, ao afrontar a Constituição, ofenderam os de bem que insistem com a cidadania e a democracia neste país.

A competência não tem gênero. Nem a incompetência

Por Adalberto Piotto​

Não, presidente Dilma, não é por ser mulher que a senhora está sendo impedida de presidir o Brasil.

Não raro, a senhora se apega a esse argumento pueril. Fez uma vez mais hoje, no que pode ter sido seu penúltimo dia na presidência.

Nunca foi essa a razão.

Fosse por isso, não teria sido sequer eleita. E a senhora venceu duas eleições. permita-me lembrá-la. Verdade que sob um marketing mentiroso e ultrajante, economia inflada por modelos insustentáveis e muita militância quebra-Petrobras, quebra-Correios, etc, sinais indeléveis de estelionatos eleitorais, mas a senhora foi eleita duas vezes. Duas!

Ser mulher e “a primeira mulher presidente”, ao contrário, devem tê-la ajudado a cegar os eleitores para os verdadeiros aspectos de sua personalidade e a completa falta de habilidades administrativas. E o jogo sujo de suas campanhas, sobretudo a última que, preconceituosa e machista, não poupou com mentiras e ofensas, uma mulher brasileira muito mais importante e reconhecida que a senhora internacionalmente. Incomparavelmente mais, sejamos claros.

Aliás, foi desespero eleitoral ou ciúme de mulher – e seu marqueteiro, além de seu espúrio padrinho Lula – o que a moveu para ataques tão rasteiros e mentirosos contra Marina Silva?

Portanto, é, sim, vergonhoso que busque no gênero um abrigo para sua derrocada justa e necessária, legal e reconhecida. Olhar para sua condição de mulher como justificativa para sua queda só aumenta a percepção de sua pequenez.
Isso ofende as mulheres e seus defensores indepedentemente do gênero. Eu estou ofendido.

O que influenciou seu impeachment, e minutos de humildade lhe mostrariam isso com eloquência, foi sua incompetência, arrogância, abuso, desrespeito, falta de vergonha, falta de respeito com os brasileiros e os país. E suas afrontas fiscais que nenhuma dona de casa, por mais simples que seja, cometeria com o orçamento próprio ou do Estado.

A senhora não está à altura de ser comparada a uma dona de casa que faz a feira e o mercado com a responsabilidade que lhe é inerente.

A senhora ofende essas mulheres. Elas são de bem e aprender com elas pode lhe garantir uma despensa a preservar sua cozinha quando deixar o palácio e seus mimos e mordomias.

A incredulidade que nos acomete é justamente porque não imaginávamos que poderia haver alguém tão irresponsável a ocupar a Presidência da República, mulher ou homem.

A senhora nos surpreendeu de forma terrível e, de forma jocosa, em vez de recolhida, insiste na petulância de olhar ao redor a procura das razões que a destituíram. Razões que só existem dentro de seus desvarios e defeitos, ao que parece, irreconhecidos pela dona que mente pra si mesma.

Não será facil a reconstrução do país.

No entanto, não duvide que o Brasil e os brasileiros avançarão sem a senhora e guardarão seu exemplo para nunca mais vê-lo copiado.

Embora seu imenso estrago ainda vá se revelar maior, uma conta que teremos de pagar, o que vai atrasar a sonhada recuperação, protelada pela sua insistência em permanecer no poder, ela virá.

Diante de milhões de brasileiros trabalhando para restabelecerem suas vidas e a de seu país, por ora, seria um estorvo menor e uma tentativa de elegância republicana se a senhora percebesse suas imensuráveis limitações, além de seus arroubos esquizofrênicos, e se recolhesse ao silêncio, à profundidade da reclusão da alma e da autoanálise.

Os grandes fariam isso.

Mesmo a senhora não sendo um deles, pode se inspirar na grandeza alheia.

Sei que ela lhe é inalcançável.

Mas tentativas normalmente são bem vistas.

A lei prospera, o Brasil também

Por Adalberto Piotto

Atribuir a Cunha, e tão somente a ele, o constitucional processo de impeachment da presidente, referendado pelas afrontas ao orçamento e ritualizado pelo Supremo Tribunal Federal, querendo com isso suscitar a invalidade da votação da Câmara, é má fé ou não reconhecimento de todos os fatos e abusos administrativos criminosos da presidência.

É negar a lei, a Constituição de todos e afirmar o despotismo e a ilegalidade abusiva de Dilma e seu governo.

O afastamento de Cunha hoje, o provável de Dilma na quarta e a sequência dessa limpeza ética e moral do país, que irá muito mais longe e abrangerá muitos mais poderosos, são fatos alentadores que devem servir para os brasileiros assumirem seu país de verdade, nunca mais se permitindo terceirizá-lo por quatro anos para políticos aventureiros ou falsos salvadores da pátria.

Que continue a limpeza legal, ética e apartidária, como já acontece sob a Lava Jato e com atos do STF, e que não se tema o presente.

O Brasil está na turbulência porque está voando em direção a um futuro melhor.

Parece até poético-literário o trecho acima. Pode ser.

Mas a suposta poesia não se sobrepõe à realidade descrita pelos fatos sem nenhuma figura de linguagem.

Está tudo em claro e bom português.

E acessível a todos.

O Brasil está avançando.

De nós, os sensatos, contra eles, os truculentos

Por Adalberto Piotto

Tomei conhecimento hoje de manhã dos atos de intimidação que acometeram Juca Kfouri, quando pessoas mascaradas foram até a rua em frente ao prédio onde mora e o xingaram. Também o chamaram de “petista” com a reclamação de ele ser contra o processo de impeachment.

A reportagem está na Folha, onde Juca é colunista.

Juca é contra o impeachment de Dilma e já dissera isso com mais ou menos eloquência argumentativa nos seus artigos.

Uma opinião, um direito, uma tese a ser discutida.

Eu, por exemplo, penso o contrário. O impeachment, não bastasse constitucional e fundamentado factual e juridicamente, é um ato legítimo em sua integralidade que teve rito e propósito estabecidos pelo Supremo Tribunal Federal recentemente.

Dirimidas eventuais dúvidas quanto ao processo, ao julgamento.

O impeachment de Dilma é para mim a repetição da afirmação da lei brasileira que governantes não estão acima da Constituição. Collor terá companhia na história.

No entanto, a divergência de opinião acerca de mesmo tema que nos une – Juca e a mim (e a tantos outros) – num debate saudável e necessário, me dá o dever, que chamo igualmente de direito, de condenar a violência ao cidadão Juca Kfouri.

E o faço deixando claro que condeno incondicionalmente qualquer crime de intolerância, como é o caso, contra ele e a tantos outros, vítimas iguais da incapacidade violenta alheia de conviver com a opinião diferente. Violência específica que nos tem assolado, sobretudo depois do odioso e covarde argumento do “nós contra eles”, incensado por irresponsáveis que se achavam – já não estão mais – acima da lei. O asqueroso argumento tem sido a inspiração de truculentos de todos os lados, sobretudo os do lado estúpido.

Não é desconhecido de nós que as redes sociais se transformaram, pra citar uma definição do filósofo Roberto Romano, em “redes de ódio”. A selvageria é extensamente publicada por gente que agride à distância, sob o signo da covardia.

A distância com que fazem suas agressões permite que estes se escondam, além de que a tipificação de crimes cibernéticos ainda nos é de pouco domínio e curto alcance.

Mas diferente de tudo isso é quando um cidadão passa a ser atacado em frente à sua casa, fisicamente, porque com consequências muito palpáveis e imediatas.

O caso se trata de mero – não menos terrível e punível – crime de invasão, de atentado às liberdades, à democracia e à privacidade, sobejamente conhecido de todos.

Meu incondicional apoio e solidariedade ao Juca e aos outros, sob quaisquer pontos de vista, que estão sendo vitimados pela selvageria suprapartidária que atenta contra o Brasil.

Em tempo:
Juca me escreve por email acerca de meu post. Ao que ele diz:
 
“Diga-se que não sou contra o impeachment. Sou contra o impeachment sem crime grave. Pedalar todos pedalam ou pedalaram. Mas é possível que apareça um crime grave.Daí…
Em resumo: penso como o Marco Aurélio Mello.”
 
Minha resposta:
 
“Sem prejuízo de nossa discordância, porque considero pedalada algo grave – e puni-la hoje nos dá uma evidência de punição amanhã e, quem sabe, até com efeitos retroativos -, foi assim que pensei escrever. Farei o adendo.”
 
Adendo feito.

A navegação de Marina

Marina Silva merece ser ouvida. Sempre e com respeito, atenção.
Mas há uma certa dubiedade na posição dela e de seu partido, a Rede Sustentabilidade, que promete inovar na política, em relação ao impeachment da presidente Dilma.
Aos fatos.
Marina diz em entrevista ao Estadão, tal como fez um comunicado de seu partido mais cedo, desconsiderar o argumento do pedido de impeachment de Dilma,redigido pelos juristas Miguel Reale, Hélio Bicudo e Janaína Paschoal, só porque estaria “contaminado” com a suposta chantagem de Cunha e Dilma não faz sentido (ambos têm razões suficientes para se acusarem e nenhum, credibilidade).
Ao fazer isso, com essa leitura da tal “contaminação”, parece desprezar a ação por causa da reação.
Uma pergunta é inevitável. Onde está o desejo da causa, da luta, mesmo as inglórias, embora justas e grandiosas?
Não é lógico nem sensato o entendimento do partido, talvez conveniente, algo que não atribuiria a Marina, embora tudo fique misturado nestas horas.
Pra mim, não apoiar o pedido de impeachment do trio de juristas, sem contestá-lo tecnicamente, só porque Cunha o acolheu (aliás, a única forma constitucional de que acontecesse) é um erro de análise provocado pela mania da política brasileira que, em vez de curar a doença, exclui-a das estatísticas ou mata-se o paciente.
E isso não me parece inovação política, mesmo vindo de um partido novo que, parece, expõe mentalidade velha.
Cunha, por tudo o que pese contra ele – e são muitos fatos cada vez mais pesados -, ainda tem atribuições institucionais. Se ele fugisse delas, como vinha fazendo, é que se constituiria omissão maior. Tal como Dilma que, mesmo sob um descalabro ético, acusações de estelionato eleitoral e uma incompetência administrativa como nunca antes vista, ainda é a presidente e tem prerrogativas igualmente institucionais.
Não aceitar nada que Cunha coloque a mão, porque Cunha é Cunha, dá no mesmo que não aceitar nada que Dilma faça ou determine, só porque Dilma é Dilma. Mesmo sob o efeito da falta de credibilidade de ambos, algo que faz perder apoio da opinião pública, não tem poder de anular nada.
Aceitar portanto a tese perigosa de “contaminação” ou ausência de credibilidade, insisto no termo, nos levaria, no mínimo, a uma sensação de desobediência legal que provocaria um vácuo de poder institucional terrível, típico para desordem política.
É mais cidadão entender o processo constitucional do impeachment e levá-lo às etapas previstas na lei sob os valores da transparência e do comprometimento com o país. Ela, Marina, dá mostras disso quando, na mesma entrevista, defende apoio e cobrança a outro processo que pode cassar a presidente e o vice na Justiça Eleitoral.
O processo de impeachment, constitucional e tão regrado quanto, merece de todos o mesmo tratamento.