Pedir desculpas dói? Mas é preciso e justo.

Por Adalberto Piotto
Que senso ou órgão interno falta a Nancy Armour, do USA Today, pra reconhecer que errou ao se precipitar e julgar o caso com o preconceito dos esnobes? E pra se desculpar?
O arremedo de artigo pretensamente sociológico que ela escreve sobre o ato irresponsável dos nadadores norte-americanos no Rio de Janeiro, em que relata a violência na cidade, a violência policial, o estado de sítio das favelas e a ausência de investigação de muitos crimes, teria algum valor não fosse apenas pra encobrir sua incapacidade de dizer “eu errei, me desculpem”. Erros publicados em sua coluna anterior em que ela diminuía o ato da mentira e da falsa comunicação de crime pelos atletas.
Com todas as deficiências da segurança pública no Brasil, em especial no Rio, neste caso, conhecidas e reclamadas pelos brasileiros, a polícia carioca só acertou neste caso ao investigar a fundo a denúncia de “assalto à mão armada por falsos policiais”, uma mentira deslavada, como provado depois. 
Olhando apenas com olhos brasileiros, o caso nos prova que temos a fórmula pra fazer bem feito também “pra brasileiro ver”. Já escrevi sobre isso.
E uma coisa certa e outras mil erradas é muito melhor que mil e uma erradas. É um sinal de esperança até porque se está punindo com severidade a mentira e os mentirosos.
E punir mentira e desvios de conduta não é mais novidade neste país desde o Mensalão. A Lava Jato confirma a regra que se pretende fazer avançar por todos os cantos do país.
Os nadadores americanos, desmentidos pela polícia e pelos vídeos de vigilância, e desautorizados pelo próprio Comitê Olímpico Americano que, constrangido, se desculpou e já cogita puni-los, ofenderam os brasileiros e envergonham seu país.
Nancy Armour, blindada contra o bom senso, ainda acredita que é possível tapar o sol com a peneira.
Não no Rio 40 graus.
Não no Brasil tropical dos brasileiros que ela subestima.

Você realmente votaria em Bernie Sanders?

A um amigo que vive nos EUA há muito tempo, um sujeito inteligente, aberto, mas que não cede a modismos nesse automatismo acéfalo da moda, perguntei que tipo de socialismo esse Sanders representa?

Bernard “Bernie” Sanders é um senador dos Estados Unidos pelo estado de Vermont e pré-candidato democrata que concorre com Hillary Clinton a indicação do partido democrata para a eleição presidencial.

Sanders é um sujeito que tem feito a cabeça de muita gente, sobretudo a de jovens que me parecem do tipo braços curtos que esperam por soluções longas que não exija deles – os jovens – o trabalho de ter de por a mão na massa da discussão social intensa, de se envolver com política muito e por muito tempo. Explicareia seguir com quem se parecem esses jovens, apenas a substituição de parte da spociedade mais velha com o mesmo pensamento.

Por isso, teses anticapitalistas de um pré-candidato que se apresenta socialista geram esse romantismo nos de tenra idade biológica ou mental, mesmo nos EUA, a meca do capital. Não deveria, afinal, o acesso à informação e o acúmulo de exemplos de salvadores irresponsáveis que naufagaram é vasto. Não acuso Bernie de ser como tal, apena pondero que o o beijo fácil, mesmo o da morte, é beijo. Eleitores do mundo inteiro tem-se dado a beijar e morrer.

E é evidente que a sensação humana de injustiça social, que tem apelo óbvio na linha de baixo do Equador, faz juntar cada vez mais gente do lado de cima, assim como por consequência, vertem os propagandistas, como Sanders, com suas falas de demonização do tal “deus” Mercado, aumento de impostos para as grandes fortunas ou simplesmente os mais ricos, universidade para todos paga por Wall Street, liberdade para os Estados legislarem sobre a maconha, etc. No caso dele, além de simpatia, tem conquistado apoio e votos dos que decidem as primárias das eleições americanas, que, no caso local, decide o candidato democrata.

Este autor que vos esvreve agora não é contra benefícios sociais, distribuição de riqueza, acesso à escola de qualidade e muita ponderação e comedimento sobre o capitalismo. Ao contrário, sou muito mais a favor disso porque quero isso de verdade e busco meios de termos isso de fato, com consistência e de forma sustentável. Não me deixo enganar mais por esses milagreiros e evito perder tempo de novo com os tresloucados de plantão que se movem pelo ego próprio e pela esperteza do “ganho eu hoje e amanhã tentamos ver o que sobra pra você”.

É claro que candidato aqui ou em qualquer lugar do mundo promete. Em inglês, português, aramaico, grego, francês, enfim, até em sânscrito ou esperanto, mas promete muito. Se críveis, lógicas ou acessíveis as promessas, discute-se depois.

Em campanhas eleitorais, a promessa feita na temperatura certa do marketing político por políticos matreiros em encontrar a fina medida das palavras e do carisma tem o raro – e mentiroso – poder de se amalgamar ao que o eleitorado quer ouvir e, por conseguinte, conceder-lhe seu apoio o mais rápido possível.

Estamos todos cansados dos políticos, não estamos? Resolver logo a pinimbacom alguém que atenda nossas dores resolve logo a nossa vida. Só que apenas tem resolvido no curto prazo. No longo, porque a vida é longa, a dor só aumenta.

Eu tenho uma tese que a espécie humana é o bicho que pode, eventualmente, ser o mais carente, mais preguiçoso e arrogante da face da Terra. Daí, quando surge algum salvador da pátria (pra suprir a carência) e que lhe dê atalhos (pra resolver a preguiça), ele embarca sem pensar muito em suas desconhecidas ou mal-explicadas posições (o que justificaria a arrogância) sem pestanejar e agressivamente defendê-lo ao dar seu voto cega e apaixonadamente.

Longe de fazer ilações ou julgamentos sobre o pré-candidato democrata Bernie Sanders, tudo o que li e vi sobre ele não deixa fechar a conta. Ou seja, aposta no marketing rápido e palatável, no discurso de consumo instantâneo, porque a fórmula das eleições não permite muito tempo para que propostas sejam discutidas até o limite de se mostrarem viáveis ou não. O tempo e o modelo lhes é favorável porque em campanha falar não é provar, é convencer.

Fica o bem dito e marketizado pelo não dito ou mal-explicado.

Mesmo assim, a conta não fecha. A mesma conta, guardadas as devidas proporções e origens, da de Lula quando era candidato. Não fechava, mas o discurso da redenção e da salvação foram um bálsamo que convenceu os carentes, preguiçosos e arrogantes, a maioria dos brasileiros. Hoje, sabemos, a conta que não fechava se revelou um rombo de longo prazo. A vilania da preguiça da maioria fez todos de vítimas por estes trópicos.

Dizia isso à época e fui criticado. Deu no que deu, não pra minha felicidade em ter acertado, mas para a tragédia coletiva em que todos estamos no país. A promessa do bem-estar se revelou insustentável, sem contar a tragédia ética de apropriação privada do governo público que seu viu com o atual partido do poder e seus asseclas aliados.

Voltando aos EUA, o fato de o modelo americano não ter dado certo de um jeito, no anseio de justiça social coletiva, representado pelo eleitorado democrata muito jovem, o público de Sanders, não significa que o oposto radical, pregado pelo canditato, para delírio dos revolucionários de períodos eleitorais, se mostrará eficaz. A discussão socialismo x capitalismo, antiquada e estúpida, deveria ser trocada pela de bem-estar sustentável x bem-estar passageiro. Quem promete e conseguirá comandar um Estado sustentável em segurança, bem-estar social, relações externas e com visão de futuro num presente aceitável?

Enfim, feitas todas essas ressalvas, mesmo sem ser um admirador convicto de Hillary Clinton, perguntei ao amigo o que ele pensa desse Sanders?

A resposta veio com a acuracidade e a bravura dos que não se acomodam e já viram esse filme outras vezes:

“Piotto, na minha modesta opinião, Sanders é um factóide produto da ingenuidade burra de uma juventude movida a diagnósticos românticos e causas patrocinadas. Nada mais escapa da sanha dos marqueteiros. Quem melhor explica Sanders é o seu oposto mais-do-mesmo, Donald Trump.”

Se Trump é a explicação de Sanders, concluo explicando minimamente quem é Donald Trump, o homem que quer fazer um muro na beira do rio Grande que separa o México dos EUA, perseguir muçulmanos e latinos e fazer alguma outra grande besteira, coisas do tipo que só convencem os incautos ou os espertos que se fingem simpatizantes, mas ganham com isso.

Os outros, a maioria de nós, perde. De novo.