Empoderamento do quê?

Por Adalberto Piotto
Parado no semáforo, vejo o motorista do carro da frente abrir a janela e arremessar a bituca do cigarro pra fora. Afinal, suponho que este motorista acha que seu carro precisa ficar limpo. A cidade de todos nós…
Logo no semáforo seguinte, emparelho meu carro por consequência da disposição natural do trânsito. Olho do lado e o motorista sujismundo é uma mulher.
Lembro-me de episódio semelhante na semana passada em que, daquela vez, eu, apenas um pedestre, vi um homem motorista jogar pela janela algum papel que acabara de amassar. Estar atento apenas pra se proteger no trânsito inclui olhar pro motorista pra tentar adivinhar o que este vai fazer. Acaba-se vendo outras coisas, como o sujão em questão.
Claro que os fanáticos dos “empoderamentos” ficariam irritados comigo se eu parasse minha história no caso da sujismunda. Mas como contei o do sujão também, deveria isso gerar em todos uma sensação de absolvição geral e irrestrita de gênero?
Não. Definitivamente, não!
Pelo contrário, aponta os dedos sem dó para ambos. E a convicção que gênero não é garantia de qualidade. Nem de cidadania.
O que existe é gente educada e gente mal educada.
Colocar o gênero como qualificador de cidadania não passa de vaidade individualista e nenhuma preocupação coletiva. Nem o é de competência.
Vir com a balela sexista pra se achar melhor que o outro do sexo oposto é, insisto, uma balela.
E muito mal-intencionada.

Os egocêntricos do Império Britânico saíram das tumbas

Nada poderia ser pior. Nenhum sinal ao mundo poderia ser pior. Nenhum gesto revelaria mais descomprometimento com o senso de pertencimento internacional do que o Brexit, o neologismo em inglês da fusão das palavras “Britain” e “exit”, saída Britânica do bloco europeu, que soa engraçadinha, mas com conteúdo ordinário na sua pretensão de se imaginar uma ilha não só geográfica, mas humana.

Num mundo em que o separatismo deu errado e que as tentativas de união, de multilateralismo, de concepção humanista, de volta à lógica de se ver como uma única espécie humana, solavancam ante as vaidades e absurdos culturais, o ato britânico de se separar por razões econômicas, mesmo com privilégios que deteve, como manter sua moeda, resgata o período de disputa entre os europeus pelo novo mundo. Naquele momento, o objetivo era avançar divisas, conquistar riquezas e espraiar influência, como seu viu em relação às Américas e à Asia, a partir do final do século 15.

Muito tempo depois, vítima de um inimigo comum e com divisas internas mais bem resolvidas, voltou a se irmanar pelo bem comum na Segunda Guerra Mundial.

A dissolução de princípios humanos pela prepotência do Nazismo fez os de bem se juntarem pela França, pela Polônia, pela Europa, pelos próprios ingleses que, não tivessem a ajuda do mundo, principalmente dos EUA, teriam sucumbido à sanha autoritária e expansionista de Hitler que queria fazer da Europa a sua ilha geopolítica.

O que Winston Churchill diria do voto separatista, algo mesquinho, egoísta, dos seus compatriotas hoje? Que neste momento de suposta perda de bem-estar social da ilha europeia, o medo de dividir com o mundo o que antes já foi dele, a solidariedade e a compreensão coletiva não merecem mais “sangue, suor e lágrimas” ingleses?

O Império Britânico de outrora não se tornou império sem explorar sangue, suor e lágrimas de nações e colonizar parte do mundo aos qual ele dá as costas agora na sua insegurança de ilha. Nem rico seria, se dependesse apenas de suas terras e climas avessos a um “bem-estar climático”. O museu britânico, uma das joias da história do planeta, deveria se chamar museu do mundo. Não existiria se todas as peças e obras dos gregos, egípcios, romanos, indianos, orientais, americanos e toda sorte de arte e vestígios da humanidade, encontrados além do Canal da Mancha, não tivessem sido, segundo evidências e, assumem alguns poucos britânicos, pilhada de seus donos derrotados pelo imenso poder dos reis ingleses.

O Reino Unido se imagina melhor só, fora de obrigações e deveres com a comunidade a qual sempre pertenceu, guerreou contra e a favor, com os valores que mais ou menos nos nortearam até o século 20.

Mas em pleno século 21 abandonar a lógica do multilateralismo, da comunhão, da tentativa de reparar erros e buscar acertos coletivos?

Não por isso, a sapiência da maioria dos filósofos, que ainda nos guia e conceitua o mundo, pertenceu muito pouco à ilha que se avista de Calais.

Londres, multicultural, cosmopolita, multitudo, haverá de ser menos capital do mundo que antes. Uma pena.

Que Deus abençoe os ingleses sãos, os coletivistas, pouco mais de 48 por cento que votaram por permanecer na União Europeia. É deles que o mundo e o Reino Unido vão precisar.

Missão: ser ponto fora da curva

Por Adalberto Piotto

Não sou sem nunca fui um profissional do tipo “carreirista”, de que repete modelos pra si, para sua vida, e em seus trabalhos.

Não deve combinar com meu estilo de “ponto fora da curva”, suponho. E não é motivado por querer ser diferente. É por querer fazer mais e melhor, se diferente ou não, mera consequência.

No entanto, sabemos, é esse tipo de atitude, de colocar novos valores e visões, que provoca gráficos mais ousados e que constroem saídas e novos olhares para um mundo que precisa encontrar novas saídas para velhos túneis de dilemas.

Mas por viver num país cuja sociedade não aposta no talento nato, prefere o formalismo dos currículos formais, o preço é alto. Eu sei porque sou eu mesmo quem pago por minha ousadia.

A maior verdade sobre o país em que vivemos é que o Vale do Silício, com dinheiro, ideias e talentos extremamente valorizados, mesmo na fase de apostas, jamais seria criado aqui. Por burocracia, vaidade, conservadorismo ou sei lá o que mais, mas não teria sido aqui seu início por justamente termos como base essa cultura de seguidor e não de líder. As inovações aqui são raras, os inovadores privados, sufocados pelo regramento convencional e os da academia ainda mal-remunerados pelos programas de pesquisa. Ser cientista no Brasil não é o máximo. Deveria ser, mas não é.

Por culpa unicamente dos brasileiros, quando você faz coisas fora da curva, embora seja reconhecido intelectualmente pela inovação que fez, isso não lhe resulta em propostas concretas de trabalhos e valorização profissional e financeira, um contrassenso, sei, mas é a nossa crua e dolorida realidade neste país.

Olho pra mim mesmo, e o fato de eu ter deixado uma carreira de sucesso como âncora de uma das mais importantes rádios de notícia do país para fazer um filme (www.orgulhodoc.com.br) que inovou na abordagem do entrevistado e em técnicas de entrevista, fotografia, narrativa e na forma de discutir o Brasil, na contramão do coitadismo brasileiro e, portanto, na criação de um debate mais franco de nós por nós mesmos (extremamente valorizado com exibições à convite de universidades internacionais como Harvard, Columbia, London King’s College), nada disso me fez mais sedutor na hora de ser chamado para novos trabalhos ou projetos pelos gestores e tomadores de decisões corporativas que ainda vivem no seu mundo quadrado e, por conveniência ou incapacidade, com receio de sair da “caixa”e apostar na novidade, mesmo a que já deu certo.

Talentos inovadores não vivem nem produzem inovações em mundos quadrados, do tipo “caixa” e, daí, uma conexão com os tomadores de decisão parece não dar encaixe, como naqueles jogos de crianças com espaços quadrados, redondos e triangulares, com peças da mesma e de diferentes formas.

E isso acontece porque ou as empresas sofrem de hipocrisia ou de deficiência de leitura e compreensão do que elas mesmos pregam. Se metade das empresas seguisse aqueles objetivos que alardeiam, normalmente dispostos em quadros com o título “Nossos valores e missão”, ah, teríamos muito mais inovação, transformações, talentos criando e, sim, um país mais moderno e desenvolvido.

O tempo sente falta de você

Por Adalberto Piotto

Pra mim, sem a pretensão de dar a receita do sucesso nem o receio de errar no diagnóstico, a solução de parte imensa dos problemas brasileiros e nossos, profissionais ou sociais, passa pela capacidade de dar verdadeiramente 10 minutos de nosso tempo a ler, ver ou ouvir algo ou alguma coisa atentamente, com desejo real de ler,ver e ouvir aquilo ou alguém.

Quase ninguém mais para pra fazer alguma coisa integralmente. Ou seja, lê um texto por alto, assiste a algum vídeo navegando no celular ou ouve alguém com a cabeça pensando em outras mil coisas.

Faz muito e nada ao mesmo tempo.

E, pior, julga o todo pela parte, normalmente equivocada que leu, viu ou ouviu.

A solução dos problemas do final do dia, que se avolumaram, talvez estivesse na primeira oportunidade do dia num email que você mal leu, no vídeo ou programa de TV que você dividiu com o celular e no conselho ou dica que pouco prestou atenção.

Ou seja, essa sucessão de erros de fazer mil coisas ao mesmo tempo resultou em um problema mal resolvido por sua própria culpa.

Não dá pra chamar isso de genialidade humana e moderna.

Avanços e retrocessos

( Publicado originalmente na minha página do Facebook em 23/04/2016)

Por Adalberto Piotto

Jair Bolsonaro é um absurdo em si. Mas sua fala virulenta contra a história ao defender torturadores, as vítimas e a decência, com pouca repercussão entre nós, dá certa demonstração de como a crise política, a turbulência, que tira o chão, nos faz desviar inclusive de nossas convicções, enquanto país que se libertou da barbárie da ditadura e não aceita outra branda ou ardente.
Bolsonaro, tão horrendo em suas defesas, consegue a proeza de até ser insofismável. Não há defesa para o que propõe. Ele faz mal até aos militares que diz defender – e que o detestam porque vive na caserna das trevas. As Forças Armadas são hoje parceiras, porque só deveriam ser assim, da sociedade. E vivem desta filosofia institucional, mesmo maltratadas no presente por erros passados. É preciso que a sociedade dê um passo em sua direção, até pra anular os radicais.
As Forças Armadas nunca foram tão chamadas a intervir e nunca disseram tão sonoros “nãos” ao que seria uma quebra institucional.
Isso é notável e a história registra isso.
Sobre a defesa de torturadores, há quem negue o Holocausto, quem negue os porões da Ditadura.
Por isso, há ainda quem negue a dor das vítimas, explicado pelo dolorido e real dito popular “Quem bate esquece. Quem apanha, não.”
Inegável e inesquecível é o pecado da violência do Estado contra cidadãos, os seus ou de outros.
Não há defesa pra Bolsonaros da direita ou da esquerda, assim como não há para Willys e Jeans e suas cusparadas justiceiras. Não há defesa pra Jair Bolsonaro. Não há defesa para a estupidez teórica ou salivar.
Tomara não haja mais votos pra essa gente na próxima eleição.