De certo e de errado, a Natura foi natural e autêntica

Por Adalberto Piotto

É assim que a coisa dá certo e dá errado no Brasil. Vejam esse caso dos empresários, de gente da iniciativa privada, poderosa e influente, narrado no Estadão, no dia 17 de março de 2016, na coluna de Sonia Racy.

O caso positivo, primeiramente – elogiável, eu diria. Pedro Passos, da Natura, se expõe num ato de coragem pessoal e compromisso republicano ao emitir sua opinião sobre a “insistência no erro” na decisão da presidente de trazer Lula, um investigado da Lava Jato, para ser ministro-chefe da Casa Civil: “É um desrespeito ao desejo da sociedade”, além de indicar sua insatisfação explícita com a condução do governo: “Não queremos mais este governo, não queremos mais este partido e não queremos mais corrupção”, ao se referir aos protestos de domingo que ganharam ainda mais corpo ontem.

Pedro Passos poderia se omitir, como faz a maioria dos empresários. Mas preferiu neste caso o caminho da honestidade intelectual, deu sua opinião. Poderia até ser outra, é de diteito democrático. Mas ele deu sua opinião.

Não é necessário dizer que esconder-se num momento como esse e não dizer de que lado está é um misto de esperteza deletéria e desonestidade que este país não precisa mais.

Digo isso para introduzir os antônimos de Pedro Passos.

O lado negativo que se revela fortemente no mundo corporativo deste país: os outros, que pela minha experiência de mais de 25 anos como jornalista é a maioria, faz diferente.
Segundo a própria nota do Direto da Fonte de Sonia Racy revela: “Esta coluna teve outras conversas com integrantes da iniciativa privada. Que, apesar terem a mesma linha de pensamento de Passos, preferiram o anonimato”.

Creio que o nome pra anonimato na hora da coragem republicana é outro. Covardia.

Comportamento típico de gente que acha que o povo brasileiro são os outros. Eles ficam nas sombras esperando o jogo terminar pra tomar posição. Tipo comentarista de jogo encerrado.

Fato é que as escutas telefônicas estão revelando a verdadeira face de muita gente.

Melhor que o façam de própria vontade e à luz do dia sob o risco de colocarem suas biografias em lugar pouco nobre, assim como o bem cortado paletó ou saia que vestem.

Mudanças, não. Avanços!

Por Adalberto Piotto

O Brasil está fértil. O solo deste país está pronto para fazer nascer uma nação. E baseio minha análise nos fatos. Todas essas sementes que foram injetadas no chão brasileiro, de pequenas cidades a imensas capitais com chuva de debates reais é algo novo, inovador no nosso cenário político.
O momento do Brasil está fértil para avanços reais, não apenas mudanças.
É o que procuramos há tempos, nós os incomodados.
Mas fato é que não me recordo de um tempo tão propício para avançarmos de vez e superarmos alguns de nossos próprios vícios.
Não é otimismo, não. É uma depuração de análise histórica. Vejamos:

– A crença em mitos e salvadores da pátria, por exemplo, caiu.
Os mitos se foram, assim como os populistas que se imagivavam enviados especiais da divindade para nos tirar do subdesenvolvimento.
E não existe mais ninguém de bom senso que acredite neles, seja porque nunca existiram ou porque são tiranos disfarçados. O único que restou no imaginário dos incautos chama tríplex de 215 metros em frente à praia de “Minha Casa, Minha Vida”, revelando-se jocoso e arrogante com um dos problemas mais graves do Brasil que é o acesso à moradia. Não bastasse isso tudo, ainda zomba das instituições ao se imaginar acima delas. Nunca esteve. Não está. Chamado a depor ou vai por bem ou por mal…coercitivamente pelo bem da democracia deste país.

– A crença que não existe atalho para a superação de problemas, tampouco terceirização da suas obrigações com seu país e a sociedade que almeja são sentimentos que estão cada vez mais fortes. Vimos isso ao ver muito mais gente nas manifestações de domingo.

– Embora ainda haja exageros pretensiosamente anarquistas de excomungar todos os políticos, como se não fossem brasileiros colocados lá por outros brasileiros, a maioria sabe que a democracia brasileira é de representação e, portanto, sempre haverá representantes nas casas do Parlamento.
O avanço neste caso é que parece estar mudando de forma vigorosa é a percepção de que a sua participação na democracia não acaba no dia da eleição e que votar é só uma pequena parte da sua obrigação com seu país.

– Não haverá uma simples troca de poder a partir de agora.
Os apupos a membros da oposição no protesto da avenida Paulista, como Alckmin e Aécio, embora infinitamente menores à ojeriza e desejo de deposição que os brasileiros nutrem por Lula, Dilma e o PT, tamanha a tragédia política e social que provocaram, dão mostras claras que não se quer apenas a troca de comando no país, quer-se um avanço institucional na admininstração pública e na relação com o cidadão. O convencimento passa por aí agora.

– Movimentos sociais, estudantis e de trabalhadores como UNE, MSTs e sindicatos, antes catalizadores dos anseios populares, não representam nada mais ao brasileiros que trabalham (salvo uma ou outra exceção que terá de provar diariamente seu caráter).
Instrumentalizados, manipulados ou com “donos” partidários, perderam a representatividade e a essência da luta social. Reduziram-se a condomínios ideológicos, massas de manobra ou nos bichos do George Orwell, mais despóticos do que aqueles aos quais criticavam.
Foram todos substituídos pelas instituições de Estado, porque realmente de todos, como a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça, sem pegágio ou intermediário para serem acessados. Já escrevi sobre isso. O divórcio litigioso que existia entre os cidadãos e as instituições, porque aprisionadas a governos, opressivas ou inalcançáveis à maioria, está acabando e se tornando numa nova e feliz união. Essas instituições deram o passo decisivo de olharem para a população e se aterem apenas aos preceitos constitucionais que as regem, servindo-as legalmente.

A consciência de tudo isso que está acontecendo por nossa intervenção no país – antes ausente, hoje presente – é que tem fertilizado o solo deste país.

E como tem chovido milhões de incomodados país afora é hora de fazer nascer o Brasil prometido.

Afinal, são os incomodados que movem o mundo e plantam o Brasil que queremos.

Relações espúrias

Por Adalberto Piotto

Uma assessoria de imprensa deveria começar assim uma conversa com uma empresa que lhe pede ajuda para melhorar sua imagem e comunicação:

– Melhore seu produto e torne-se ética e socialmente responsável antes de tudo. O resto a gente faz e garante que dá certo.

Fato é que muitas empresas procuram assessorias para melhorar a cena do crime. E crime é crime, seja qual for, onde for e com que intensidade for. E as assessorias topam.

E todos depois reclamam que o Brasil está ruim.

Hipocrisia em seu estado mais bruto.

Dilma e a média

Por Adalberto Piotto

A inflação estourada acima de 10% é, sim, um crime de lesa-pátria cometido pela presidente Dilma.

É dela a culpa. A gerente, a chefe, a administradora. O resto é de paus-mandados que responderão por omissão, leniência ou covardia. Ou tudo isso junto.

Mas a “chefe” é a responsável pela tragédia econômica e ainda não veio a público pedir desculpas à nação por atentar contra um dos dois valores realmente coletivos da sociedade brasileira: a estabilidade econômica.

O outro valor é a democracia que ela igualmente atenta ao usar do pior estilo do ‘é dando que se recebe’ para se manter no poder.

Esta senhora, seu partido e seu mentor são uma tragédia na história deste país.

Que sirva de lição aos brasileiros que ainda acreditaram nos atalhos que essa gente ofereceu com segundas e terceiras intenções, menos as primordiais de soberania social.

Deu errado de novo, como sempre.

Construir um país justo é demorado e requer a boa fé da alma e o suor do corpo. Ambos foram dispensados pelo governo.

A receita tem competência, resiliência, desejo, vontade e disposição.

O melhor do Brasil são os brasileiros de bem.

O pior é a média da sociedade, omissa e imediatista.

Média de ricos, médios e pobres.

Essa é a gente que continua jogando lixo no chão, fazendo “gato” de esgoto, eletricidade, TV a cabo e de cidadania.

Já disse que o “gato” da barragem da Samarco não é melhor nem pior que o de quem liga rede de esgoto doméstica na tubulação de captação pluvial pra não pagar o serviço, poluindo ainda mais os rios e praias. É só uma questão de escala. A moral de um ou de outro está no mesmo nível de imundície.

Enquanto a média da sociedade for ruim, o país não será bom. E teremos governos ruins na média. É matemático.

Dilma só fez puxar mais pra baixo.

Com ela veio o país inteiro.

É onde estamos.

Força em 2016.

A navegação de Marina

Marina Silva merece ser ouvida. Sempre e com respeito, atenção.
Mas há uma certa dubiedade na posição dela e de seu partido, a Rede Sustentabilidade, que promete inovar na política, em relação ao impeachment da presidente Dilma.
Aos fatos.
Marina diz em entrevista ao Estadão, tal como fez um comunicado de seu partido mais cedo, desconsiderar o argumento do pedido de impeachment de Dilma,redigido pelos juristas Miguel Reale, Hélio Bicudo e Janaína Paschoal, só porque estaria “contaminado” com a suposta chantagem de Cunha e Dilma não faz sentido (ambos têm razões suficientes para se acusarem e nenhum, credibilidade).
Ao fazer isso, com essa leitura da tal “contaminação”, parece desprezar a ação por causa da reação.
Uma pergunta é inevitável. Onde está o desejo da causa, da luta, mesmo as inglórias, embora justas e grandiosas?
Não é lógico nem sensato o entendimento do partido, talvez conveniente, algo que não atribuiria a Marina, embora tudo fique misturado nestas horas.
Pra mim, não apoiar o pedido de impeachment do trio de juristas, sem contestá-lo tecnicamente, só porque Cunha o acolheu (aliás, a única forma constitucional de que acontecesse) é um erro de análise provocado pela mania da política brasileira que, em vez de curar a doença, exclui-a das estatísticas ou mata-se o paciente.
E isso não me parece inovação política, mesmo vindo de um partido novo que, parece, expõe mentalidade velha.
Cunha, por tudo o que pese contra ele – e são muitos fatos cada vez mais pesados -, ainda tem atribuições institucionais. Se ele fugisse delas, como vinha fazendo, é que se constituiria omissão maior. Tal como Dilma que, mesmo sob um descalabro ético, acusações de estelionato eleitoral e uma incompetência administrativa como nunca antes vista, ainda é a presidente e tem prerrogativas igualmente institucionais.
Não aceitar nada que Cunha coloque a mão, porque Cunha é Cunha, dá no mesmo que não aceitar nada que Dilma faça ou determine, só porque Dilma é Dilma. Mesmo sob o efeito da falta de credibilidade de ambos, algo que faz perder apoio da opinião pública, não tem poder de anular nada.
Aceitar portanto a tese perigosa de “contaminação” ou ausência de credibilidade, insisto no termo, nos levaria, no mínimo, a uma sensação de desobediência legal que provocaria um vácuo de poder institucional terrível, típico para desordem política.
É mais cidadão entender o processo constitucional do impeachment e levá-lo às etapas previstas na lei sob os valores da transparência e do comprometimento com o país. Ela, Marina, dá mostras disso quando, na mesma entrevista, defende apoio e cobrança a outro processo que pode cassar a presidente e o vice na Justiça Eleitoral.
O processo de impeachment, constitucional e tão regrado quanto, merece de todos o mesmo tratamento.