Por que não dá pra desistir deste país?

Porque tem muito mais gente tentando fazer dar certo do que o contrário.

Simples assim.

Gente que não desiste nunca. Esmorece vez ou outra. Mas não desiste.

Os milhões do último dia 15 de março de 2015 são os sucessores dos milhões das Diretas Já de 1984.

Um amigo já com filhos adultos me confidenciou que convenceu os amigos a irem à manifestação com o argumento de que “nossos netos vão nos perguntar onde estávamos neste dia”.

Eu falei desse aspecto, dessa minha crença baseada na percepção real do nosso cotidiano de que há muito gente insistindo com o país, pela primeira vez na “entrevista com o diretor”, nos extras do DVD do meu filme Orgulho de Ser Brasileiro, filmado em 2012.

Mas dou dois exemplos mais recentes.

Na quinta, dia 26 de março, estava no aeroporto de Congonhas a caminho de São Joaquim para acompanhar a Vindima da Serra Catarinense e rever a Villa Francioni, a convite de Daniela Borges de Freitas, presidente da vinícola, a quem tinha conhecido no lançamento da empresa 10 anos atrás e revisto no lançamento de seus novos vinhos com rótulos do artista plástico Juarez Machado, em 2014, na Ravin de Rogério Davila.

Sergio Inglez de Souza, meu mestre maior de vinhos, e um estudioso e especialista dos vinhos brasileiros, me convidara para fazer parte de um grupo de jornalistas e degustadores que provariam in loco os primeiros vinhos da região. Eram vários produtores reunidos na recém-concluída vinícola Villa Francioni.

Falo de 2005, creio.

Quase 10 anos mais jovem, este blogueiro à esquerda. Ao meu lado, Sérgio Inglez, enconberto pelo ângulo da foto pelo saudoso Saul Galvão que tem ao seu lado Rui Alves. Na cabeceira da mesa, João Paulo Freitas e, em pé, Bettú.

Retomando o momento do aeroporto, ao passar pela revista de segurança, naquela coisa de botar tudo de volta na mochila rapidamente para não atrapalhar a fila, ouvi um dos seguranças dizer que “trabalhar é bom, mesmo que o governo não ajude”. Emendei a conversa com ele dizendo que “desistir não é mesmo alternativa” e “vamos fazer a diferença por aqui”, etc, num tom otimista, mesmo com a situação difícil do país, assunto dos cavalheiros à frente de nós.

Afinal, você indo trabalhar ao lado de um monte de gente trabalhando é contagiante pro bem.

Foi quando ele disse: “eu não desisto deste país é nunca”.  E logo saiu a orientar e auxiliar outros passageiros que passavam pelo detector de metais.

Já em São Joaquim, em Santa Catarina, para a Vindima dos produtores dos vinhos de altitude deste terroir diferenciado no país, vale a pausa: o caso dos vinhos de Santa Catarina são um exemplo à parte que merece comentários e revelações.

Orgalindo Bettú, o gaúcho enólogo da Villa Francioni, um perfeccionista e entusiasta da capacidade brasileira de fazer vinhos de alta qualidade, me contou do Chardonnay que fizeram em 2014 e que, aberta recentemente uma garrafa da enoteca, mostrou que só agora atingiu seu apogeu. Ou seja, se bem vinificados, o terroir da Serra de Santa Catarina faz brancos envelhecerem por até 10 anos. É fato provado.

Bettú numa prova de tanque de "brancos" em início de fermentação que me convidou a participar

Brancos de guarda são características do velho mundo.

E se os brancos têm esse potencial, expressam uma mineralidade e longa persistência na boca, diferenciando-se por ter menos explosão de frutas de boa parte da consagrada produção do Novo Mundo como Chile e Argentina, pra citar nossos vizinhos bons de vinho e mercado, os tintos se revelaram igualmente preciosos. No caso dos vinhos da Villa Francioni, os quais tive mais chance de provar, desde o Joaquim, passando pelo clássico VF e o fantástico Michelli, um corte com predominância de Sangiovese, os barris franceses podem guardar o vinho por até três anos, dependendo do estilo que se quer.

Não é comum.

O detalhe da degustação neste caso é que as uvas brasileiras neste caso mostraram ter estrutura de fruta para apenas pegar o lado bom do amadurecimento em madeira, incorporando-a com classe, sem resultar em vinhos com os exageros dos “barricados” demais.

Modesto, Bettú me conta que isso é uma característica do terroir, do cuidado especial com os parreirais e a escolha cuidadosa dos barris. Sem dúvida que isso representa que a região se mostra com diferenciais e frutas com capacidade para fazer vinhos estruturados, elegantes e longevos. Mas associe isso ao grande talento do vinificador e o propalado futuro promissor do início dos anos 2000, quando Dilor de Freitas começou o projeto, se torna a cara realizada do presente de vinhos finos e competitivos em qualidade. Coisa que vi em vários outros por lá.

O preço dos vinhos de preço mais alto da Villa se mostra um páreo ante a situação atual do país. Mas vendem bem. E pela qualidade, uma vez provados, evoluem para a privilegiada posição de escolha do consumidor. Semelhantes importados de semelhantes preços lhe trarão a tradição e o tempo de mercado que possuem com sua reconhecida qualidade. Os “jovens” da Serra Catarinense, como se pode ver também em outras regiões do Brasil, dar-lhe-ão a novidade com qualidade parelha.

Uma escolha entre a novidade e tradição.

Os parreirais da Villa Francioni: tintas estruturadas.

E a vinícola teve a ideia tempos atrás de lançar a linha de entrada, os Aparados tinto e branco, abaixo dos 40 reais. Não os provei desta vez, tamanha a oferta de rótulos que os muitos produtores expuseram na feira da Vindima. Mas ouvi gente que respeito elogiar a qualidade do produto e se encantar com o preço. Falarei  com mais propriedade do Aparados quando provar o exemplar tinto de 2008 que descansa deitado na minha adega.

E volto à mesa do jantar de comemoração da 2ª Vindima dos Vinhos de Altitude, quando comentava com todos o meu filme, indagado sobre a razão que me moveu a deixar o jornalismo, o rádio, etc.

E, sim, os documentários recém-lançados do projeto Pensando o Brasil sobre gastos públicos e burocracia de minha parceria com a agência Tutu e a Fecomercio São Paulo, coisa que motivou a discussão do mau momento do país, a sensação de desgoverno, inflação em alta, dólar descontrolado e, em especial, o ambiente de negócios brasileiro que alimenta a “indústria do carimbo”, frase que ouvi de um empresário descontente com o tempo que perde com a burocracia porque, insistia ele, não aceita pagar propina.

Por outro lado, apesar da situação, os muitos empresários da conversa que dividiam a mesa com Daniela, estavam lá trabalhando, investindo em produção de vinhos.

No caso de Santa Catarina, uma região já comprovada para vinhos de qualidade, mas que precisa, como todas do país, de muito investimento ainda. Ou seja, não era ganho garantido. Era aposta, dedicação.

Se o terroir ajuda, o negócio de vinho é ainda muito difícil no Brasil com alto custo tributário, dura competição com os estrangeiros, preconceito insistente e desinformado de parte dos consumidores ao vinho nacional e, sim, a distribuição do produto num território da imensidão do Brasil.

Não posso mensurar o caso de cada investidor ali, as pré-condições que tiveram e têm.

Mas investir é risco.

E se há dificuldade de um lado, há trabalho dobrado de outro, tanto para o segurança do aeroporto de Congonhas quanto para os empresários de vinho. Gente que está dedicando tempo e recursos no país, investindo no futuro do Brasil, apostando, gerando empregos, impostos e prestando bom serviços.

É interessante quando se olha ao redor com a mente mais aberta. Quando se permite tentar avançar.

Porque desistir do Brasil não é opção.

E você não está sozinho.

No setor de vinificação da Villa Francioni, a moldura em azulejos fala por si.

Ps1.: essa percepção minha que resultou num artigo com pegada realista e otimista não isenta o governo federal, responsável pelo desgoverno e pela política econômica de nada. Nem diminui minha crítica severa à incompetência e irresponsabilidade de Lula e Dilma. Tampouco minha cobrança por mais eficiência, honestidade e transparência na condução do país.

Eu, como milhões, sou mais um brasileiro resiliente.

Ps2.: Vinhos são feitos de pessoas. As uvas vêm depois e são imprescindíveis.

Ps2.: esse país é bonito demais!  O caminho de Florianópolis a São Joaquim é “coalhado” de araucárias.

A paisagem de Santa catarina com as araucárias que conheci nas aulas de geografia na 5ª série.

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Uma retomada

Faz tempo que não escrevia neste blog.
Mas não fiquei muito tempo sem escrever.
As outras mídias é que se mostraram mais acessíveis estes tempos.
Isso somado à falta de tato com essa tecnologia do blog do WordPress (o Facebook é tão mais fácil) e a dedicação a outros trabalhos fizeram com que me afastasse um pouco.
Abaixo, publiquei alguns dos posts que foram para o Facebook originalmente.
Vou buscar outros.
Mas voltei.
Ao menos por ora, estou de volta.


E vou escrever sobre o que está ao redor, o que observo, sem a pretensão de dar resposta, mas de me deixar instigar com os questionamentos.
A Filosofia prevê isso tudo. E eu gosto de Filosofia, sabemos.
E vou falar de muita coisa, como pretende este blog, mas muito também de vinhos e comida, duas paixões de muito tempo que conjugo no dia a dia e hoje, vejam só, estão na moda.
Mas volto a falar desses assuntos de outra forma: o lado humano que envolve vinhos e cozinha,  normalmente preterido pela crônica especializada, mas imprescindível.
Como pratos feitos em casa que são mais do que a foto mostra.
O bolo de chocolate com recheio de brigadeiro feito por mim era o único que minha princesa aceitava para seu aniversário este ano (fora assim também em anos passados).

Isso é o que o mundo chama de “confort food”.
Outro exemplo foi o cuscuz de frango com gosto de quermesse de paróquia de interior, do sertão de São Paulo de onde eu venho.
Este meu Homo Sapiens permite que se publique tudo o que é humano, desde que de bom gosto, o que inclui polêmicas, desde que com respeito.
E também vou escrever sobre minha visão do “algo a mais ” dos filmes que assisto.
Não, não será uma crítica. Os críticos já fazem isso. Muitos de grandes e pequenos veículos, pelo que vejo, só com pretensão ou arrogância.
Alguns poucos, de grandes e pequenos também, com conhecimento e respeito.
Irei por esse segundo caminho que,  pra mim, é o único aceitável.
E o farei com sensibilidade. Vejo filmes assim,  com esse “a mais” que o diretor buscou, o ator representou e o filme clama para ser visto tal como.
Sou um apaixonado por expressões faciais. E por olhar o filme ao redor do centro da cena.
Lembro-me do filme “A dama de ferro ” sobre Margareth Thatcher. Muitos da crítica reclamaram do filme porque esperavam um filme de história.
Deveriam ler livros de história para isso. Cinema pode ser até uma aula,  mas não tem esse objetivo como principal.
Assoberbados na ânsia de encontrar um defeito,  não perceberam que o filme era sobre o drama pessoal, só humano de uma das mais duras, temidas e poderosas mulheres do século XX.
E nisso o filme foi especular.
É assim que vejo filmes. Sem pretensões, só aberto a minhas emoções e intenções dos diretores.
Como no “Fomos Heróis”, com Mel Gibson. A delicadeza com que se trata da dor da guerra do Vietnã, no caso,  é de emocionar.
Há um “lava-pés” da humildade da proteção recíproca entre os soldados e uma entrega de cartas às famílias dos soldados mortos que são de uma profundidade e sensibilidade inatacáveis.
É por aí que vale ver as coisas.
É por aí que pretendo escrever, pensar e nos discutir. Sobre tudo.
Enfim, estou de volta.
Abraços e seja bem-vindo.

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De vinhos e chatos

(Publicado originalmente no dia 6 de março no facebook)

Li e ouvi atentamente alguns comentaristas de vinho nos jornais e nas rádios esses últimos dias.

Todos, com alguma exceção que me escape, só falaram de vinhos importados e caros.

Nada contra vinhos importados nem caros, embora prefira sempre gastar pouco e beber bem, até porque lamentavelmente somos um dos países no mundo que mais gasta dinheiro com vinhos por causa do sobrepreço dos impostos e pela sanha ambiciosa de alguns importadores e restaurantes (há graciosas exceções).

Mas tenho que dizer que tenho desprezo intelectual (só não é pior que desprezo moral) por esses pretensos críticos e comentaristas, ora homens chatos, ora meninas docemente arrogantes.

Ou desconhecem a realidade brasileira, financeira e produtora cada vez mais competente de vinhos, ou alimentam o esnobismo na mesma medida da própria ignorância.

Eu, como jornalista e estudioso independente do assunto, se pudesse, sugeriria a você que virasse a página ou mudasse de rádio rapidamente se o colunista de vinhos não for capaz de sempre lhe sugerir também alguma garrafa abaixo de 40 reais e um nacional.

É o mínimo que se deve esperar de um crítico realmente bom e capaz.

Protecionismo x informação

Dose de informação: em protesto, importadora vende vinhos sem impostos

Há quem diga que o grande consumidor ainda está do lado de fora de uma grande discussão no Brasil. Tenho minhas dúvidas.

Fato é que o Ibravin, o Instituto Brasileiro do Vinho, em defesa dos seus associados, produtores brasileiros, pediu ao governo federal uma consulta para eventuais salvaguardas contra o vinho importado. Um protecionismo visando proteger a indústria nacional, que prosperou e se desenvolveu, mas se sente ameaçada com a competição.

O mercado chiou, reclamou e o mundo do vinho se debate em relação ao tema. Continue reading

Bem-vindos!

Seja bem-vindo ao meu blog www.homosapiens.net.br

Depois de muito tempo, lanço hoje este blog. Além de material novo, contemporâneo, atual, há uma seção que se chama O que já escrevi, que traz aqui alguns dos textos que já publiquei em revistas ou jornais e na internet.

Entre as páginas, há uma que chamei de Um livro não publicado, que traz um relato precioso, e verdadeiramente nunca publicado, de uma viagem de três semanas pelos Estados Unidos em 2004.

E, claro, muita coisa nova como a especialíssima série Sob e sobre os meus 40, uma série de videoblog corajosa, de grande exposição, que pretende discutir esta idade emblemática que chego agora. E o personagem…eu próprio.

Na página Entenda o Blog, há muito mais explicações do que pretende isso tudo, com detalhes sobre o documentário Orgulho de Ser Brasileiro, uma verdadeira menina dos meus olhos, entre meus projetos pessoais nesta nova e muito feliz fase de minha vida. Neste caso, uma categoria em específico para discutir o tema e trazer bastidores de sua produção.

Por isso tudo, por gentileza, sinta-se muito bem-vindo!

Adalberto Piotto